top of page

Inovar é Reinterpretar: por que soluções não bastam em um mundo saturado de respostas

  • Sergio Souza
  • 18 de jun.
  • 4 min de leitura

A simples projeção do passado ou do presente já não oferece os mesmos resultados em tempos de mudança acelerada. Como alerta Chiavenato (2004), as transformações atuais não guardam mais similaridade com o que já foi; é preciso abandonar a lógica da repetição e fazer "downloads de futuros", como propõe Meira (2022). Nesse cenário, a inovação assume papel central na reinvenção de modelos de negócio, culturas organizacionais e formas de gerar valor.


O conceito de inovação tem sido amplamente debatido e formalizado por organismos internacionais como a OCDE, que, por meio do Manual de Oslo (1992), estabeleceu parâmetros claros para sua identificação. Segundo esse referencial, inovação não é sinônimo de novidade aleatória, mas de mudanças significativas – seja em produtos, serviços ou processos – que são efetivamente implementadas e utilizadas. Pequenas alterações estéticas, protótipos ou soluções isoladas não caracterizam, por si só, inovações. Inovar exige, além de criatividade, alinhamento com as demandas do mercado e conversão estratégica. Como apontam autores como Drucker (1985) e Fraser (2012), a criatividade só gera valor quando orientada para um fim relevante; caso contrário, corre o risco de ser apenas exercício estético.


É fundamental, portanto, distinguir inovação de tecnologia. A tecnologia diz respeito aos meios pelos quais uma organização transforma recursos em produtos ou serviços. Toda empresa, em maior ou menor grau, detém diversas tecnologias organizacionais – não apenas digitais ou computacionais. Inovação, nesse contexto, é a mudança intencional de uma dessas tecnologias com vistas a gerar mais valor. Ou seja, não se trata apenas de criar algo novo, mas de promover mudanças com impacto real.


No Brasil, os dados sobre inovação revelam um cenário ambíguo. Por um lado, o país apresentou evolução no Global Innovation Index de 2022, ocupando a 54ª posição entre 132 países e figurando entre os três mais bem colocados da América Latina. Por outro lado, persistem entraves estruturais: baixa qualificação da força de trabalho, políticas frágeis de incentivo à inovação, escassez de investimentos e cultura empreendedora incipiente. Elementos como a burocracia, o pensamento de curto prazo e a resistência à mudança minam a capacidade das empresas de inovar com consistência.


Embora a maioria dos executivos reconheça a importância da inovação – como evidenciado em pesquisa da CNI (2020) que mostrou que 83% deles a consideram essencial para a sobrevivência no pós-pandemia –, poucas organizações contam com estrutura dedicada a isso. A ausência de orçamento específico, profissionais qualificados e estratégias de médio e longo prazo torna o discurso inovador frequentemente vazio de ação. A consequência é a dificuldade de converter intenção em impacto.


Além disso, é necessário compreender os diferentes tipos de inovação. As incrementais, mais comuns, promovem melhorias em produtos já existentes. Já as inovações disruptivas alteram profundamente o mercado ao oferecer uma proposta de valor completamente nova. Paradoxalmente, a boa gestão pode ser um obstáculo à inovação disruptiva, como mostra Christensen (2012). O foco em rentabilidade imediata, atenção exclusiva a grandes mercados e escuta ativa aos clientes existentes pode levar empresas consolidadas a ignorar sinais de ruptura vindos da periferia de seus ecossistemas. Em contextos assim, os dados que embasam decisões estratégicas podem ser escassos, imprecisos ou irrelevantes, o que demanda outra forma de planejar e decidir.


A alocação de recursos, por exemplo, é geralmente tratada como um processo racional e hierárquico, mas muitas vezes depende da capacidade de gestores intermediários de reconhecer o valor emergente de ideias ainda não validadas pelo mercado. São esses atores que conectam a leitura do contexto com as possibilidades de inovação – não raro, desafiando os próprios sistemas da organização. Afinal, as capacidades que permitem à empresa gerar valor hoje podem ser as mesmas que a impedem de inovar amanhã.


É nesse ponto que surge a ideia de inovação de significado, conceito desenvolvido por Roberto Verganti (2018). Quando o ambiente se torna excessivamente complexo e saturado de opções, ter mais ideias não resolve – pode até confundir. A verdadeira inovação, nesse contexto, não está em responder melhor a problemas existentes, mas em redefinir quais problemas merecem atenção. Trata-se de um deslocamento epistemológico: inovar não como solução, mas como interpretação.


Verganti propõe uma lógica inversa à da ideação exógena. Em vez de partir da multiplicação de ideias vindas de fora, como no brainstorming ou na inovação aberta, propõe um processo endógeno e crítico, baseado nos valores, visões e convicções internas da organização. A crítica – entendida aqui em seu sentido original de discernimento – é o ponto de partida. É por meio dela que se questionam as estruturas de sentido já estabelecidas, abrindo espaço para a emergência de novos significados. Ao reinterpretar o que é relevante para as pessoas, cria-se a possibilidade de oferecer uma nova direção ao mercado, não apenas uma nova resposta.


Nesse modelo, criar significado é mais do que agregar valor: é gerar sentido. Diferente das soluções, os novos significados não se medem em escalas ou benchmarks, porque o próprio critério de avaliação – o sentido – é o que está sendo transformado. Em um mundo repleto de "comos", é o "porquê" que gera diferenciação duradoura.


Empresas que desejam permanecer relevantes precisam operar nas duas frentes: oferecer soluções melhores para os desafios atuais e, ao mesmo tempo, vislumbrar novos horizontes de sentido. A inovação de significado não substitui a inovação incremental, mas a precede. Ela redefine a bússola. E em tempos de transformações descontínuas, é exatamente isso que se exige: coragem para deixar de responder e começar a perguntar de novo.

Comentários


Siga-nos nas redes sociais

  • White LinkedIn Icon

.

bottom of page